:: Cultura Popular ::

Este número segue o desenho de um grupo de pesquisa – do qual tenho orgulho em integrar – o Núcleo de Cultura Popular da UERJ. Como sempre lanço o olhar ao meu redor, fui premida pela necessária abordagem de meus colegas de pesquisa objetivando, com mais uma entrevista (saindo na próxima revista em outubro a fala do prof. Ricardo Gomes Lima), apresentar esse grupo ao público de Art&. Nosso primeiro entrevistado, o prof. Luiz Felipe Ferreira, é um de seus integrantes. Cascia Frade, nossa entrevistada de agora, é sua fundadora. Referência internacional na área de cultura popular, Cáscia é pessoa de longa experiência na área e, como grande pesquisadora que é, nos dá ainda uma lição extra: mantendo em vigor sua curiosidade investigativa, exala o vigor de quem está sempre lidando com a descoberta...

Em seguida, o projeto editorial pretende, definindo-se como abrangente e integrador, ir pouco a pouco incluindo outros grupos, passando então por outras estratégicas aglutinações de pensadores das práticas culturais populares.

Entrevista com Cáscia Frade

Art&: Como se situam hoje os estudos acadêmicos em cultura popular? Como Articular o saber disciplinar, elaborado em bases cientificistas com a lógica aberta e a viva dinâmica dos saberes populares? Qual o papel da cultura popular na universidade?

Cáscia: Nos espaços acadêmicos a cultura popular sempre foi entendida como algo exótico, ultrapassado, “curioso”, “interessante”, “não evoluído”. Façamos justiça aos pioneiros: o iniciador dos estudos, Willian John Thoms, na Inglaterra do século IXX, foi um arqueólogo que chamou a atenção de sua área para o “significado daquelas antiguidades” que não estavam impressas em cavernas mas nos espaços recônditos da memória. Franz Boas, nos EEUU, fez com que a antropologia se voltasse também para as práticas tradicionais presentes entre as etnias existentes na sociedade americana. No caso do Brasil, Renato Almeida, Edison Carneiro, Mario de Andrade, dentre outros, lideraram movimento para inserção da cultura popular na universidade, não como disciplina, mas como campo de saber. A conjuntura política de então (início do século XX) não ofereceu condições para a efetivação do projeto, conta Lucia Lippi. Atualmente ela se situa em espaços especiais, Museus, por exemplo, e, como disciplina, em cursos de Educação Física, Turismo e eventualmente, muito eventualmente, em cursos de Artes.

Não vejo oposição entre o saber organizado “em bases cientificistas” e aquele estruturado na própria vida. O saber do viver possui estrutura de grande complexidade, visceralmente relacionada com todos os aspectos da vida humana, incluindo a racionalidade. Pesquisas sobre medicina tradicional fundamentada em vegetais, por exemplo, comprovam que os componentes químicos neles existentes são cientificamente indicados para os males tratados pela sabedoria popular. O que falta à ciência legitimada é desvestir-se de sua arrogância e de sua prepotência e identificar os valores que existem fora dela.

Art&: Em que se define a Cultura Popular? Como Articular um conjunto heterogêneo de manifestações reunidas em um único e grande conjunto – os fatos populares – sem perder as suas qualidades mais significativas?

Cascia: Costumo chamar de “a problemática conceitual” quando o tema é a definição desse campo. Há inúmeros estudos sobre a questão, que ao final não dão conta de abrangê-lo. Gosto muito da expressão de Peter Burke que, percebendo a intensa dinâmica nela existente, (o que provoca uma precariedade nos conceitos), a caracterizou como “presa esquiva”. Creio que o aspecto mais essencial dessa situação da cultura é a tradicionalidade, algo que possui um lastro histórico, em permanente movimento de atualização. Lembro Câmara Cascudo, quando inquirido sobre isso: “Cultura popular, a contemporaneidade do milênio”.

Art&: E o folclore? Devemos abandonar de vez essa categoria? Qual a diferença entre folclore e cultura popular?

Cascia: A língua é um fenômeno social também de grande vivacidade. Os termos surgem, depois caem em desuso, perdem sua essência, descaracterizam-se.  Foi o que ocorreu com a palavra folclore. Perdeu seu sentido mais profundo e passou a significar “bobagem”, “brincadeira”, “ignorância”, “exotismo”, “saber infundado”. Dando conta desse fato, os estudiosos da cultura popular brasileira, reunidos num Congresso realizado em Salvador, BA, em 1995, decidiram empregá-lo como sinônimo de “cultura popular”, sem perda dos aspectos definidores do folclore, quais sejam: tradicionalidade e funcionalidade, principalmente. Mas a presa continua esquiva...

Art&: Podemos falar de uma Arte popular? Como ela acontece? Ela é Arte em seu próprio meio social ou esse é um modelo atribuído no espaço de sua assimilação por um pensamento academicamente elaborado? Ou, como percebo ocorrer em muitos casos, é uma estratégia de marketing político?

Cascia: Entendo a Arte como forma de comunicação que encontrou na estética seu “modus operandi”. Sejam os materiais plásticos, sejam as sonoridades, sejam a gestualidade, todos podem se tornar suportes de uma linguagem que visa expressar pensamentos, sentimentos, propostas, etc. Como os estudos filosóficos sobre estética, mais indagam do que afirmam e não sendo este  um campo de minha militância, não tenho segurança para afirmações. O que percebo é que a apreensão da linguagem implícita no objeto estético é absolutamente subjetiva. E como nosso olhar, como disse Ruth Benedith, possui lentes ajustadas pelas experiências da vida social, os focos serão muitos e variáveis.  

Art&: O que explicaria, em termos mais gerais, as aproximações de alguns Artistas contemporâneos em direção a algumas manifestações populares? Qual o sentido desses produtos? Eles inaugurariam formas híbridos de pArticular condição e estariam situados no contínuo espaço de diálogo entre o popular e o erudito?  O que há de inovador nessas novas apropriações do popular?

Cascia: Não percebo nada de inovador nesse recente processo de aproximação de Artistas eruditos com os populares. No campo da música, várias composições criadas no século passado, por compositores eruditos, já revelam o mesmo procedimento: Camargo Guarnieri (“Congada”), Vila Lobos (“Cirandas”), Frutuoso Vianna (“Festa de Rei Negro”), etc. Há que se notar que há um movimento de mão dupla, qual seja, a cultura popular também pode se inspirar em formas consagradas pela erudição. O exemplo clássico é a Quadrilha. Inicialmente uma dança de salões aristocráticos, com instrumental e harmonização acadêmicos, coreografia conduzida por marcador que usava termos franceses no desenvolvimento da “Quadrille”, Vinda para o Brasil com a família real, freqüentou os nobres palácios nos trópicos e daí ganhou as senzalas e os terreiros, e passou a ser executada em instrumentos de uso popular – sanfona, tambores, etc. – acrescida de termos que denotam experiências cotidianas – “Olha a chuva!”, “Olha a lama”, “Passeio”, etc. – além daqueles surgidos de uma apreensão audiológica – “Grand chaîne” virou “Garramchê”), e daqueles franceses, ditos com sotaque aportuguesado - “En avant”: “anavan”; “chez de dammes”: “ché de dame”; “tour”: “tu”, etc. Há inúmeros outros exemplos que denotam a existência de um processo híbrido que descArta a vigência de “pureza” no universo da cultura.

Art&: Ao ser definido como Artista popular, o sujeito alcança notoriedade e tem acesso a ambientes da cultura a ele antes inaccessíveis. Muitas vezes ele é destacado de seu meio e perde o vínculo com outras práticas as quais estava anteriormente ligado. Qual o papel do Artista popular nesse processo de eleição? De que modo o título de “Artista” pode influir em seu trabalho?

Cascia: O Artista popular sonha por um reconhecimento, o que ocorre quando é alçado aos espaços consagrados por uma elite intelectual. Interessante observar que sua comunidade de origem também se orgulha dessa conquista (“Fulano já expôs em museu”, “já pArticipou de congresso” etc.) Vejo como decorrente da dinâmica da própria Arte as possíveis transformações que poderão ocorrer. O que me parece negativo são as interferências diretas, aquelas que não permitem uma reelaboração interna e individualizada, feita pelo próprio Artista. Mas, não sejamos ingênuos, ele tem suas estratégias de sobrevivência, sem perda da identidade

Art&: Por outro lado, Artistas com formação acadêmica estão se voltando para práticas eminentemente populares. O carnaval carioca é prova disso, com estudantes de Belas Artes esculpindo as imagens alegóricas e compondo indumentárias. Eles se tornam, assim, Artistas populares?

Cascia: Uma das características da Arte chamada popular é que o processo criativo que a conforma não ocorre em instâncias acadêmicas, com suas normas, regras e técnicas oficiais. Portanto, alunos ou professores de Arte nunca deverão ser vistos como Artistas populares.

Art&: A mídia televisiva, assim como vários produtores da indústria videográfica, tem se voltado principalmente para louvar manifestações folclóricas. Qual a dimensão mais concreta desse fenômeno?

Cascia: A televisão tem exercido ou pode exercer um duplo papel: promover, ao divulgar; descaracterizar, ao interferir ou ridicularizar. Tudo dependerá dos modos como atua.

Art&: Ainda sobre a TV e seus efeitos... Não há novidade nisso e minha questão recai para a própria extensão desse fato: houve um aumento da presença dos agentes da televisão nas formas populares de celebração religiosa. A época da Semana Santa, como é o caso da procissão dos  FAECOCOS (?), em Goiás, é um exemplo forte de como a mídia penetra e manipula a organização da celebração, tornando-a um evento midiático. Em que medida a exposição continuada pode transformar essas práticas em um espetáculo vendável? Quais as formas de expressão excluídas nos discursos televisivos? O que a TV não consegue enquadrar?

Cascia: Como a televisão não vive sem vendáveis, não é de se espantar que ela possa transformar aspectos da cultura criados com objetivos de expressão e afirmação de identidade, em produtos de consumo. Não creio que seja a exposição continuada que provocará as mudanças. Exibir festas, danças, pratos típicos, grupos rituais, em seus ciclos anuais, costumam ser fatores de vitalidade pois seus promotores sabem que poderão ser vistos  em lares de todo o mundo. Relembro uma pergunta que era recorrente entre meus informantes:_”A gente vai sair na televisão? Não esqueçamos que esses indivíduos vivem na mesma sociedade que valoriza a TV e têm pleno acesso a ela. Entretanto, isso não significa submissão. Uma pequena história ocorrida  na baixada fluminense, onde existe um grupo de Bumba-meu-boi, integrado por nordestinos. Certa ocasião o grupo foi convidado para pArticipar de cenas de novela e, para atender às exigências da produção, o mestre mudou adereços do “boi” (materiais com maior absorção de luz Artificial). O grupo recebeu um bom cachê. O que ocorreu depois foi que mestre Manoel possui hoje dois “bois”: um, que ele chama de “boi da Globo” e o outro que é “o meu boi”. O primeiro  atende a convites “de quem não entende do assunto” – TV e Prefeituras, principalmente – e o segundo, financeiramente sustentado pelo outro, “é pra mim e minha gente”.                              

Art&: Como pensar a cultura popular em nosso contexto globalizado? Em que medida ela está sendo absorvida pelo capitalismo internacional como um produto como outro qualquer, capaz de gerar novas frentes de trabalho economicamente rentáveis? O que perdemos e o que ganhamos com isso?

Cascia: Quando se fala em globalização, lembro o “frisson” que o termo causou entre os estudiosos da cultura popular, preocupados com as conseqüências do fenômeno. Vejo que estávamos enganados: acabo de receber cinco convites para Festa de Remate de Folias de Reis, localizadas na área mais industrializada e culturalmente efervescente do grande Rio de Janeiro. E, se pensarmos em mundialização, percebo que a cultura popular, com suas possibilidades de troca e de aquisição, está a nos dizer que no fundo do quintal há ecos do universal.

Art&: Cáscia, cultura é invenção?

Cascia: Um certo dia, quando iniciei meus estudos no campo da antropologia, pensei em começar pela definição de cultura. Li vários autores, de diferentes escolas e épocas. Dadas as variações, cheguei à conclusão de que poderia adotar uma. Escolhi a de Edward Tylor, que me parece mais abrangente: “modos de pensar, de agir e de reagir que os homens criam, frente à vida”. Inclua-se ai uma infinidade de signos, perpassados por uma densa teia de significados que lhe permitem construir um mundo. Trata-se portanto de um fenômeno decorrente do poder criativo, inventivo do homem.

Art&: Fale com a gente sobre o seu livro Dicionário do Folclore Fluminense e sobre seus trabalhos voltados para a área de educação.

Cascia: O Dicionário do Folclore Fluminense – que se chama Guia do Folclore Fluminense, menos pretensioso – foi escrito a muitas mãos. Na época eu dirigia uma seção da Secretaria Estadual de Cultura e trabalhava com uma equipe formada por sete pesquisadores, com formações diversificadas. Como fiquei muitos anos nesse cargo e desenvolvemos muitos trabalhos de campo no Estado, decidimos reunir numa publicação os dados que íamos recolhendo. Festas, danças, culinária, grupos rituais, jogos infantis e de adultos, personagens mitológicos, enfim, um amplo universo foi sistematizado para registro e acesso dos interessados. Publicamos outros trabalhos, muitos deles voltados para a educação, a pArtir desses materiais. O que mais me agrada é um que, fundamentando-se em canções, quadrinhas e outros ditos próprios do mundo infantil, sugere aos professores uma série de atividades voltadas para a linguagem, a música, as Artes plásticas, numa tentativa de aproximar conteúdos disciplinares, das vivências dos alunos. Chama-se “Essas águas são de flor”, que é uma expressão presente numa cantiga de crianças, registrada nas pesquisas.

Art&: E nos conte sobre suas últimas pesquisas:

Cascia: Já há algum tempo venho desenvolvendo estudos sobre as celebrações populares em torno do Divino Espírito Santo. Estou mergulhada numa festa que engloba pagamento de promessa, comida especial e a presença de crianças. Chamam-na “Mesada dos anjos”. Por conta desses anjos, que são as crianças, estou lendo obras teológicas. Vamos ver onde desembocará a pesquisa.

Pombas do Divino

Extraímos de sua coleção particular de Arte Popular, algumas imagens da representação do Divino Espírito Santo, a pomba.

Adalto Alves Pequeno, Nova Iguaçu/RJ;

Obra anônima

Obra anônima

Obra anônima

Obra anônima

Nando & Patrícia, Petrópolis/RJ

Editora Responsável: Profª. Drª. Isabela Nascimento Frade


ISSN 1806-2962

 

Revista Digital Art& - ISSN 1806-2962 - Ano VI - Número 09 - Abril de 2008 - Webmaster - Todos os Direitos Reservados